Marcha fúnebre
Ninguém chora pela morte dos lacaios. A não ser que, com lágrimas de crocodilo, pretendam os patrões encorajar novos lacaios a servi-los com a mesma perfeição que os defuntos.
Vem isto a propósito das lacrimejantes prosas que jornais e televisões, a mando dos seus amos e proprietários, verteram ao anunciarem a morte de Boris Ieltsin. Trata-se, de facto de uma boa operação de propaganda. Com duas vertentes – uma, a de, à maneira do branqueamento do fascismo que por cá vai medrando, fazer esquecer aos que se lembram ainda, o papel desse títere do imperialismo, fundamental no desmembramento da União Soviética, na ilegalização do Partido Comunista e, sobretudo, na privatização da economia que engordou um punhado de novos capitalistas e lançou na miséria a maioria da população; outra, a de lançar poeira nos olhos de quem não se lembra por não ter vivido há quinze anos a tragédia, e de apresentar o corrupto presidente da Rússia num herói da liberdade e da paz.
E, chamando-lhe «pai da Rússia», como faz o reaccionário Jornal de Notícias, ou «pai da liberdade», como, em zapping, vi e ouvi num canal televisivo, ou divulgando o convulsivo choro de Putin – que recebeu o poder das mãos de Ieltsin, pagando-lhe com um perdão definitivo e retroactivo todos os crimes e a imensa burla que Boris deixou de herança, gozando a reforma com o vasto traseiro sentado na imensa riqueza roubada ao povo; ou, ainda, noticiando as lagrimas copiosas de Durão Barroso na sua qualidade de presidente da União Europeia. Certamente gostariam de juntar aos elogios fúnebres as vozes de Thatcher e de Reagan, se não fora a taralhouquice da primeira e a amnésia do segundo.
Pelos anos que aí vêm, outros funerais virão. Talvez os próximos cadáveres não se apresentem tão embebidos em vodka, nem tenham um percurso tão vistoso como o do homem que «fez carreira no Partido Comunista» – exactamente, «carreira» foi o que eu ouvi – para depois traírem de forma tão retumbante. Mas haverá sempre gente a fazer-lhes o elogio fúnebre, e a dizer que foram uns homens bons.
Vem isto a propósito das lacrimejantes prosas que jornais e televisões, a mando dos seus amos e proprietários, verteram ao anunciarem a morte de Boris Ieltsin. Trata-se, de facto de uma boa operação de propaganda. Com duas vertentes – uma, a de, à maneira do branqueamento do fascismo que por cá vai medrando, fazer esquecer aos que se lembram ainda, o papel desse títere do imperialismo, fundamental no desmembramento da União Soviética, na ilegalização do Partido Comunista e, sobretudo, na privatização da economia que engordou um punhado de novos capitalistas e lançou na miséria a maioria da população; outra, a de lançar poeira nos olhos de quem não se lembra por não ter vivido há quinze anos a tragédia, e de apresentar o corrupto presidente da Rússia num herói da liberdade e da paz.
E, chamando-lhe «pai da Rússia», como faz o reaccionário Jornal de Notícias, ou «pai da liberdade», como, em zapping, vi e ouvi num canal televisivo, ou divulgando o convulsivo choro de Putin – que recebeu o poder das mãos de Ieltsin, pagando-lhe com um perdão definitivo e retroactivo todos os crimes e a imensa burla que Boris deixou de herança, gozando a reforma com o vasto traseiro sentado na imensa riqueza roubada ao povo; ou, ainda, noticiando as lagrimas copiosas de Durão Barroso na sua qualidade de presidente da União Europeia. Certamente gostariam de juntar aos elogios fúnebres as vozes de Thatcher e de Reagan, se não fora a taralhouquice da primeira e a amnésia do segundo.
Pelos anos que aí vêm, outros funerais virão. Talvez os próximos cadáveres não se apresentem tão embebidos em vodka, nem tenham um percurso tão vistoso como o do homem que «fez carreira no Partido Comunista» – exactamente, «carreira» foi o que eu ouvi – para depois traírem de forma tão retumbante. Mas haverá sempre gente a fazer-lhes o elogio fúnebre, e a dizer que foram uns homens bons.